Chile, Destinos, Magallanes y la Antártica Chilena

DIENTES DE NAVARINO – gratuito, sinalizado, selvagem e fascinante

A Isla Navarino é uma ilha chilena localizada no extremo austral do planeta, separada da Isla Tierra del Fuego pelo canal Beagle. Nesta ilha não há cidades, somente pequenas vilas. A população está concentrada em Puerto Williams, com 2874 habitantes.

Se Puerto Williams crescer, pode deixar Ushuaia orfã do título da cidade mais austral do planeta. Atualmente Puerto Williams é ao mesmo tempo vilarejo, base naval e porto.

A temperatura média anual de Puerto Williams é de 6 ºC. Fomos no verão, e teve um dia que estava por volta de 17 ºC, considerado como um dia quente para os nativos.

Exploramos dois destinos nesta ilha: a cordilheira Dientes de Navarino e o lago Windhond.

Para conhecer Dientes de Navarino percorremos um circuito de 53 km, bem sinalizado, bem cuidado, selvagem e gratuito. Não há Conaf na ilha, portanto não há guarda-parques e não há cobrança para entrar neste reduto da Natureza. Não há refúgios, banheiros, guaritas, quiosques, nada. Mas o cuidado da prefeitura é percebido pela sinalização da trilha, em Hitos, do começo ao fim. Todos os dias cruzamos com uma meia dúzia de trekkers, e quase todas as noites acampamos sozinhos, nos lugares que escolhemos, sem imposição de autoridades locais. Liberdade de escolha e belezas naturais se misturam neste paraíso. Será que o belo Torres del Paine um dia foi assim?

Como chegamos

Nosso destino anterior foi a cidade argentina Ushuaia, localizada no sul da ilha Tierra del Fuego; de onde navegamos até à Isla Navarino.

Em Ushuaia contratamos pela Onashaga Expeditions, o traslado por bote para a ilha Navarino. São somente 45 minutos de navegação, chegando pelo Puerto Navarino. De Puerto Navarino, uma van nos leva por 54 km e 1h10min para Puerto Williams, onde está a aduana chilena.

O traslado é bem caro, 120 dólares americanos por pessoa. Segundo a moça que nos vendeu a passagem, é caro por ser um translado internacional e o Chile não permite a chegada de grandes embarcações argentinas; eles levam somente 12 pessoas por viagem, encarecendo essa travessia marítima. Para você ter uma ideia, o custo para ir de avião de Puerto Williams para Punta Arenas é o mesmo que ir de bote e van de Ushuaia para Puerto Williams.

Em Puerto Williams quase não há Airbnb, que está sendo nosso meio de hospedagem mais usado até o momento. Basicamente batemos na porta do primeiro hostal que vimos e ficamos. O Hostal Paso McKinlay é bem familiar e toda a hora que o dono nos via, nos convidava para tomar um café. Sempre de portas abertas, com a tranquilidade que um vilarejo austral pode dar.

Para os trekkers, o principal atrativo da Isla Navarino é o circuito Dientes de Navarino.

Roteiro

Normalmente este circuito é realizado com 4 noites e 5 dias. No nosso ritmo sabático, fizemos em 7 dias, relatados com detalhes abaixo.

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dia 1: Puerto Williams – laguna del Salto

Ainda em Puerto Williams percebemos que um cachorro nos acompanhava. Ele andava à nossa frente e sempre dava uma olhada para trás para conferir se ainda estávamos no mesmo caminho. De início não demos muita importância para ele.

Após 50 minutos de sairmos do hostal em Puerto Williams, chegamos na trilha. Na entrada há um banheiro, mas infelizmente não havia água. Tenta imaginar o estado do WC… Espero que consertem.

Um mapa explicativo nos dava boas vindas ao circuito Dientes de Navarino. Paramos para olhar o mapa e fiz um breve cafuné no cachorro. Pronto! Nossa amizade estava selada.

Toda a trilha está sinalizada com placas denominadas “Hito” e numeradas de 1 a 38. Neste dia fomos até o número 10, onde fica o primeiro local de acampamento: a laguna Del Salto. O circuito Dientes de Navarino também está no Maps.Me.

A trilha começa em bosque, pelo cerro Bandera e algumas árvores caídas confundem no início, mas depois segue bem sinalizada. Uma vaca morta, por uma queda de árvore, exala odores indescritíveis no ar.

A subida é bem empinada até sairmos do bosque e avistarmos o que um dia foi a bandeira do Chile. Próximos da bandeira há dois mirantes explicando a ampla paisagem, que vai de Ushuaia à Punta Truco, passando pelo Puerto Navarino, baías Virginia e Róbalo, Puerto Williams, villa Ukika e isla Gable.

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Depois da bandeira seguimos reto até começar a contornar o cerro Bandera, a céu aberto e pisando em pedras. Vimos uma homenagem a uma turista espanhola, que caiu nesse trecho e acabou morrendo em outubro de 2016. Ela estava sozinha e como era baixa temporada, ninguém a viu para socorrê-la a tempo. Uma das maiores seguranças para ser um trekker, é andar acompanhado.

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Avistamos embaixo o vale Róbalo e as lagoas Róbalo, Palachinque e del Salto. Começamos a descer no meio de pedras soltas até a Laguna Del Salto, onde acampamos. Estávamos no Hito 10.

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No acampamento descobrimos que o cachorro, que continuava conosco, era uma cadela.  Coitada… Passou fome e pegou chuva à noite.

Deveriam ter mais 6 barracas acampando na Laguna del Salto. A área de acampamento é bem grande e caberiam muito mais.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 1.

dia 1

Resumo dia 1
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
11 km
5 a 6 horas
1008 metros
588 metros
691 metros
Moderada

dia 2: laguna del Salto – intersecção trilha Windhond

Acordei com a cadela toda feliz ao nos ver saindo da barraca. Apesar de não alimentá-la, a amizade entre nós cresceu. Tínhamos a esperança, que sem comida, ela voltasse para Puerto Williams. Fracassamos…

A continuação da trilha é por cima da Laguna del Salto. É uma subida curta seguindo o percurso da água, pisando em pedras. Logo acima da lagoa há uma área de acampamento, do Hito 12, com paredes de pedra para proteger do vento.

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Seguimos mais um pouco e após 1 hora de caminhada, passamos pelo Paso Primeiro e encontramos um outro local para acampar. Nos desviamos da trilha à direita para exploração. Tivemos uma grata surpresa de nos depararmos com 3 lagoas e um caminho de água colorido.

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Voltamos para a trilha e passamos pelo Paso Austrália, que dá para Laguna del Paso à esquerda e logo em seguida, alcançamos o Paso de los Dientes. Caminho com bastante pedras no chão.

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Descemos um pouco até a Laguna del Picacho, e nos deparamos com uma bifurcação. À direita segue o circuito Dientes de Navarino e em frente, uma trilha que leva ao morro e lagoa Bettinelli. Finaliza no grande lago Windhond, famoso por proporcionar boa pescaria.

Seguimos em frente e em poucos metros encontramos uma área de acampamento, com um riacho perto e por lá ficamos. Mais tarde chegaram mais 3 caminhantes, com uma imensa vara de pesca, e acamparam perto de nós. Eles estavam indo em direção à Windhond.

Todo o dia caminhamos embaixo do Sol e com lindas paisagens por toda a trilha.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 2.

dia 2

Resumo dia 2
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
7 km
3,5 a 4,5 horas
523 metros
489 metros
783 metros
Moderada Leve

dia 3: intersecção trilha Windhond – cerro Bettinelli – laguna de los Dientes

Deixamos nossa barraca montada e continuamos na trilha rumo ao morro Bettinelli.

Primeiro passamos por uma castorera e em seguida iniciamos a subida dentro de um bosque. Em certo momento, as árvores do bosque são substituídas por pedras, até chegarmos no cume após 1h30min. Estava ventando forte neste dia, mas para compensar o céu estava aberto e fomos privilegiados com uma ampla vista. O morro tem um cume largo e amplo, e a sensação que dava é que os ventos sempre estão por lá.

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Na volta, quando saímos do cume e entramos no bosque, protegidos do vento, a cadela saiu saltitante de alegria. Neste dia meu coração já a pertencia e comecei a dar alguns pedaços da minha comida para ela.

Descemos de volta em 1h15min, desmontamos acampamento e seguimos no circuito Dientes de Navarino.

A trilha continua no Hito 16, por entre pedras até chegarmos na Laguna de los Dientes. Teoricamente esta lagoa não é uma área de acampamento, mas encontramos um lugar para nossa barraca e por lá ficamos.

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Descontando as paradas, foram 4 horas de caminhada, terminando no Hito 17.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 3.

dia 3

Resumo dia 3
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
7,5 km
3,5 a 4,5 horas
598 metros
618 metros
885 metros
Moderada Leve

dia 4: laguna de los Dientes – entre hitos 22 e 23

Andamos somente 3 horas. Fomos do Hito 17 a logo depois do Hito 22.
Bem perto da lagoa de los Dientes fica a lagoa Escondida. É uma lagoa que não conseguimos ver no cume do morro Bettinelli, talvez por isso tenha esse nome… Há um mirador nesta lagoa.

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Entre pedras, passamos pelo Paso Ventarrón, onde fica o Hito 22, indicando que metade do circuito Dientes de Navarino foi percorrido.

Descemos e no primeiro lugar que avistamos, montamos nossa barraca.

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A cadela já tinha um nome: Nava, em homenagem aos Dientes de Navarino. Hoje foi o dia do Ramon ceder. Sem saber que ontem discretamente eu já compartilhava minha comida com a Nava, preocupado, ele decidiu alimentá-la também. Aprendemos uma lição: espante qualquer cachorro que se aproximar no início de uma trilha, para não se sentir responsável por ele depois.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 4.

dia 4

Resumo dia 4
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
6 km
2,5 a 3,5 horas
405 metros
416 metros
712 metros
Moderada Leve

dia 5: hito 22 – entre hitos 31 e 32

Foi um dia de lagoas e pasos. Passamos pelo paso Guérrico, lagoa Hermosa (foto) e lagoa Martillo. A lagoa Zeta vimos de longe.

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Tivemos que contornar a lagoa Rocallosa, pela sua beirada lotada de pedras.

Antes de passar pelo paso Virginia e depois do hito 31 acampamos no meio de algumas árvores.

Caminhamos por 3h15min em uma trilha muito semelhante aos dias anteriores, embaixo de Sol e com trechos de pedras.

Foi um dia com muita dor de cabeça. Para o jantar tivemos macarrão com linguiça. Dispensei a linguiça, para a extrema alegria da Nava, que enfim teve uma boa refeição.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 5.

dia 5

Resumo dia 5
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
7,5 km
3 a 4 horas
386 metros
454 metros
554 metros
Moderada Leve

dia 6: hito 31 – laguna dos Guanacos

Entre os Hitos 30 e 32 a trilha não está muito bem sinalizada. Trechos duvidosos aparecem. Por conta disso, é aconselhável uma consulta no Maps.Me ou GPS.

Para chegar até o Paso Virgina, enfrentamos muito barro e pedras. Teve até um trecho de escalaminhada. Os ventos nos acompanhavam conforme subimos. No paso é possível avistar nosso próximo acampamento, na lagoa dos Guanacos.

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A descida do Paso Virginia é bem inclinada com muitas pedras soltas e um pouco de escalaminhada. É mais fácil confiar nos pés e descer escorregando. A descida vai dar direto na lagoa dos Guanacos, então é bom frear!

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Contornamos ela pelo lado esquerdo, passamos pelo riacho gerado pela lagoa e acampamos na outra ponta.

Nesta noite tivemos a companhia de mais pessoas. Aproximadamente 5 barracas juntaram-se a nós, para a alegria da Nava que socializava com todos que via.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 6.

dia 6

Resumo dia 6
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
6,5 km
2,5 a 3,5 horas
594 metros
497 metros
861 metros
Moderada

dia 7: laguna dos Guanacos – Puerto Williams

Há dois caminhos para iniciar a descida até Puerto Williams: pela esquerda ou pela direita do riacho. Descemos pela direita do riacho. O começo é um pouco confuso, pois a trilha não está bem demarcada. Talvez pelo lado esquerdo seja mais fácil a visualização.

Toda a descida foi praticamente dentro do bosque, margeando o rio pela direita. Não encontramos os dois hitos que deveríamos encontrar. Mas haviam fitas rosas indicando o caminho e a seguimos.

O bosque fica para trás e a marcação também. Trilha de gados e cavalos confundem um pouco. Mas como não há muitos obstáculos, a orientação foi visual mesmo, já era possível avistar a estrada. Descemos para direita e avistamos o antigo pesqueiro Mac Lean. Fomos em sua direção. Chegamos na estrada e oficialmente no final do circuito.

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Foi o 1º circuito Dientes de Navarino da Paula, o 2º do Ramon e estimamos que o 42º da Nava.

Era domingo e como não passava nenhum carro em direção a Puerto Williams, seguimos a pé mesmo. Andamos bastante e conseguimos uma carona no final. A Nava seguiu o carro freneticamente e continuou conosco até o hostal. Quando ela percebeu que entraríamos no modo ‘descanso’, ela simplesmente seguiu a vida dela, como se nunca tivesse nos conhecido. Ficamos até um pouco sentimentais. Deixou saudades em nossos corações.

Seguem abaixo a elevação e o resumo do dia 7.

dia 7

Resumo dia 7
Total percorrido
Tempo
Subida
Descida
Altitude máxima
Dificuldade
7,5 km
3 a 4 horas
106 metros
644 metros
549 metros
Moderada Leve

Custos

Como não tínhamos muito pesos chilenos em espécie e a cotação do dólar era boa nos estabelecimentos em Puerto Williams, pagamos quase todas as nossas contas em dólares.

Seguem alguns custos em pesos argentinos (ARS) e dólares americanos (USD).

  • Taxa do porto de Ushuaia, individual: $ARS 60,00
  • Traslado de Ushuaia para Puerto Williams, em bote e Van, individual: $USD 120,00
  • Hostal Paso McKinlay, diária casal, quarto e banheiro privados, café da manhã e cafezinho à vontade: $USD 67,00
  • Refeição, restaurante Onashaga, preço médio individual: $USD 13,00

Cotação em 25/02/2018:
$USD 1,00 = $BRL 3,24 = $ARS 19,95

Resumo do trekking

  • País: Chile
  • Cidade: Puerto Williams (Isla Navarino, Cabo de Hornos)
  • Início: Isla Navarino, Plaza de la Virgem
  • Fim: Isla Navarino, pesquera Mac Lean
  • Distância total: 53 km
  • Duração: 7 dias
  • Subida acumulada: 3629 metros
  • Descida acumulada: 3692 metros
  • Altitude máxima: 885 metros
  • Mapa da trilha: Wikiloc
  • Previsão do tempo: Windguru
  • Período do trekking: final de fevereiro de 2018
  • Dificuldade: Moderada. Necessário bom condicionamento físico e conhecimento em acampamento selvagem.

Dicas

  • Se um cachorro de rua te seguir e você não tiver comida para alimentá-lo, espante-o imediatamente. A sugestão é jogar água nele.
  • Entre os Hitos 30 e 32 a trilha não está bem definida. Baixe o mapa off-line no MapsMe para garantir.

Dados sabáticos

1091 km trilhados
105 noites acampando
30 cidades
11 cumes
8 meses
4 países

Quer mais?

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Abaixo, veja outros lugares que conhecemos na Patagônia:

Cochamó
Acampe em La Junta no lindo vale de Cochamó no Chile.

Paso Rio Puelo
Travessia em trilha, do Chile à Argentina, chegando em Lago Puelo.

Refúgio Motoco
Na cidade argentina de Lago Puelo, ao lado de El Bolsón, começa a trilha que leva ao refúgio Motoco.

Refúgios em El Bolsón
Também acampamos nos refúgios Hielo AzulPiltriquitrónEl Retamal e Los Laguitos.

Bariloche
Não é só de esqui que vive Bariloche. Vá conhecer o Parque Nahuel Huapi.

Ushuaia
Ushuaia, cidade mais austral do mundo, também conhecida como Fim do Mundo; onde é possível ver lagoas, glaciares, montanhas, castoreras, turberas, pinguins e lobos marinhos.

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