América do Norte, Califórnia, Estados Unidos

PACIFIC CREST TRAIL #20 e JOHN MUIR TRAIL – Onion Valley (788 mi) a Mount Whitney

Em 2019 decidimos caminhar um pedacinho da Pacific Crest Trail, uma longa trilha de 4200 km, que percorre a costa oeste norte-americana, indo do México (milha 0) ao Canadá (milha 2659). Esta trilha ficou popular após ser retratada no filme “Wild”, traduzido como “Livre” no Brasil.

O resumo desta caminhada está descrito no post principal “Pacific Crest Trail – nosso pedacinho deste longo caminho“.

Neste relato segue nossa última caminhada na Pacific Crest Trail, pelo centro da Califórnia na Sierra Nevada, sentido Sul, de Onion Valley até Horseshoe Meadows, caminhando por John Muir Trail, Kings Canyon National Park, Sequoia National Park e Inyo National Forest.

John Muir Trail, ou JMT, é uma das trilhas mais famosas dos Estados Unidos, com 340 km passando por 2 florestas nacionais (Inyo e Sierra) e 3 parques nacionais (Yosemite, Kings Canyon e Sequoia). Inicia no Yosemite Valley e termina no ponto mais alto dos Estados Unidos, fora do Alasca e Havaí, o Mount Whitney.

Boa parte da JMT se sobrepõe à Pacific Crest Trail, o que nos possibilitou conhecer quase 300 km dela. Infelizmente não conhecemos cerca de 40 km da John Muir Trail, referente ao Yosemite Valley, pois a PCT não passa por lá. Neste 20º e último trecho, percorremos 70 km desta magnífica trilha.

Assim que possível, o vídeo desta caminhada estará disponível em nosso canal do YouTube.

Resumo da caminhada

  • País: Estados Unidos
  • Estado: Califórnia
  • Cidades próximas: Bishop, Independence, Lone Pine
  • Início: Onion Valley – Bishop e Independence
  • Fim: Horseshoe Meadows – Lone Pine
  • Distância: 102 km
  • Duração: 6 dias
  • Período: final de setembro de 2019

Abaixo, segue mapa com os pontos azuis onde dormimos:

Como chegamos

Acordamos no El Rancho Motel em Bishop, onde terminamos nosso décimo nono trecho da Pacific Crest Trail. Almoçamos no MCDonald’s e caminhamos até a saída da cidade, para tentarmos uma carona. Em menos de 10 minutos parou um carro com um casal. Coincidentemente eles também estavam caminhando a PCT e, ainda por cima, o motorista falava português. Era um “meio” brasileiro, que nasceu nos Estados Unidos, mas a mãe é brasileira. O simpático casal nos deixou na vila Independence.

Em Independence foram necessários 5 minutos para conseguirmos outra carona até Onion Valley, onde recomeçamos nossa caminhada em nosso último trecho na PCT.

Abastecimento

Início do trecho – Bishop e Independence

Bishop é uma cidade razoavelmente grande, com lavanderia, várias opções de hospedagem, correios, mercados, lojas de equipamentos e restaurantes.

Outra opção para o início do trecho seria Independence, uma pequena vila, com alguns hotéis, um campground e dois mercadinhos bem precários. É possível tomar banho por USD 5 no posto de gasolina Chevron, comer um super sanduíche na lanchonete ao lado, e aproveitar a internet.

Final do trecho – Lone Pine

No final do trecho chegamos na pequena e charmosa cidade Lone Pine, onde há um ótimo mercado, restaurantes, e hotéis não muito baratos. Também há a opção de um acampamento próximo à cidade, para quem não quiser gastar com hospedagem.

Roteiro

Caminhamos em 5 noites e 6 dias, finalizando 121 dias na Pacific Crest Trail, como segue:

  1. Onion Valley/Keasarge Pass a 788 mi (Bullfrog Lake Trail)
  2. 788 mi (Bullfrog Lake Trail) a 775 mi (Tyndall Creek)
  3. 775 mi (Tyndall Creek) a 767 mi (Crabtree Meadow)
  4. 767 mi (Crabtree Meadow) a Mount Whitney a 767 mi (Crabtree Meadow)
  5. 767 mi (Crabtree Meadow) a 751 mi (Chicken Spring Lake)
  6. 751 mi (Chicken Spring Lake) a Horseshoe Meadow

Dia 1: Onion Valley/Keasarge Pass a 788 mi (Bullfrog Lake Trail)

Total
Passamos por
11 km
Inyo National Forest
John Muir Wilderness
Kings Canyon National Park

Devido ao nosso deslocamento tardio até o início da trilha, começamos a caminhar somente às 14h30min. Este dia foi praticamente um repeteco do último dia do trecho 19. Fomos até o Keasarge Pass, chegando no passo às 17h30min. Já era tarde, então apertamos o passo na descida. Fomos pela trilha do Bullfrog Lake, e às 18h30min chegamos na Trail Juction com a John Muir Trail e Pacific Crest Trail. Acampamos por lá junto com outra barraca. Começamos nosso último trecho na PCT com muita eficiência.

Clique aqui para voltar ao menu do roteiro.

Dia 2: 788 mi (Bullfrog Lake Trail) a 775 mi (Tyndall Creek)

Total
Passamos por
21 km
Kings Canyon National Park
Sequoia National Park

Voltamos a caminhar pela John Muir Trail e Pacific Crest Trail. Acompanhamos por algum tempo o Bubbs Creek e seguimos subindo até o Forester Pass, o ponto mais alto da PCT com 4060 metros de altitude.

No Forester Pass acontece a divisa entre o Kings Canyon National Park e o Sequoia National Park. E dá para sentir a diferença. Apesar das fotos não demonstrarem a imensidão do que vimos, no lado do Sequoia os paredões rochosos não eram tão imponentes como os paredões do Kings Canyon.

vista para Kings Canyon National Park
vista para o Sequoia National Park

A princípio iríamos acampar próximo ao Forester Pass, mas como havia tempo e disposição, decidimos descer até a floresta para nos abrigarmos do frio durante a noite.

Acampamos ao lado do Tyndall Creek, próximo a um armário à prova de ursos. Aliás, hoje vimos uns 4 locais de acampamento com esses armários.

Clique aqui para voltar ao menu do roteiro.

Dia 3: 775 mi (Tyndall Creek) a 767 mi (Crabtree Meadow)

Total
Passamos por
13 km
Sequoia National Park

Como a caminhada seria curta, acordamos um pouco mais tarde e saímos às 9 horas. Trilha bonita no Sequoia National Park, mas não chega aos pés do Kings Canyon National Park, com seus paredões rochosos.

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Sequoia National Park

Passamos por bosques e áreas descobertas. Descemos, subimos e descemos até o Cabtree Meadows, onde há um Ranger Station e um local de acampamento com bear box.

Acampamos cedo às 14h30min, isso porque o Cabtree é o local onde os PCT hikers deixam suas barracas para atacar o Mount Whitney. Vale observar que apesar da PCT não passar pelo Mount Whitney é permitido atacar seu cume. E claro, que todos aproveitam esta oportunidade. Como essa regra pode mudar, é sempre prudente conferir o site da PCT Association a cada ano.

Outra observação pertinente é que quem faz a Pacific Crest Trail não tem permissão de continuar a trilha desde o cume até o portal Whitney, que seria o acesso mais curto à cidade Lone Pine.

Aproveitei o dia de Sol para tomar banho e lavar a cabeleireira. No frio é dureza…

Clique aqui para voltar ao menu do roteiro.

Dia 4: Mount Whitney

Total
Passamos por
26 km
Sequoia National Park

Acordamos, deixamos nossa barraca no Cabtree Meadows. Levamos conosco água, lanche, bastões de trekking e roupa para o frio e vento. Eu também deixei minha mochila e o Ramon levou tudo em sua mochila. O dia tinha que ser leve, afinal de contas teríamos uma longa subida até o Mount Whitney.

No caminho ao Mount Whitney passamos ao lado de dois lagos: Timberline e Guitar.

Guitar Lake

Ao iniciarmos a subida tivemos a vista para os Hitchcock Lakes. O vento também começou a se intensificar.

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Hitchcock Lakes

Passamos por um passo de montanha onde a trilha segue para o Portal Whitney, o acesso mais rápido para a cidade Lone Pine. É por lá que os hikers do John Muir Trail vão embora. Lá havia uma placa informando sobre o perigo de raios no cume. A partir deste ponto começamos a encontrar mais pessoas.

O vento, somado com a altitude, esfriava nossos corpos. Hora de parar e vestir todas as roupas que levamos, principalmente a calça e a jaqueta impermeável. Mesmo com luvas, meus dedos continuavam frios. Além disso a baixa temperatura deixava os narizes pingando todo o tempo. E para piorar a situação, minha bandana que protegia meu rosto estava toda molhada.

Sem peso nas costas e para espantar o frio, caminhamos rápido rumo ao cume. Foi quando fiquei sem fôlego e lembrei que estávamos a 4000 metros de altitude, onde o ar começa a ficar raro. Reduzi a velocidade e continuei caminhando entre pedras à beira de um penhasco e ao lado de uma grande parede rochosa com vários picos no caminho.

caminho para Mount Whitney

Passamos pelo único ponto de neve da trilha, foram alguns metros de um corredor de neve bem batida de tanto caminharem sob ela. Ao lado da trilha, a neve estava na altura do joelho. Estávamos nos últimos dias de setembro. Quase toda a neve do inverno passado já havia derretido no verão norte-americano.

Mais alguns passos e chegamos no cume do Mount Whitney, a 4421 metros de altitude, a montanha mais alta dos Estados Unidos fora do Alasca e Havaí.

chegando no Mount Whitney

No cume uma casa de pedra servia de abrigo do vento e frio. Fui direto para lá tentar re-aquecer minhas mãos. Aproveitamos para comer nosso lanche, que estava quase congelado.

refúgio do Mount Whitney

Quando comecei a sentir novamente meus dedos, encarei o vento frio e saí do refúgio para ver rapidamente a bela paisagem do cume. De um lado o deserto, e do outro a Sierra Nevada.

cume Mount Whitney
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cume Mount Whitney
Mt 3.jpeg
cume Mount Whitney

Infelizmente o desconforto não me deixou aproveitar o momento e saí de lá o mais rápido que pude. Além do frio, eu estava com uma vontade imensa de fazer xixi, e lá no cume faltava privacidade.

Voltamos pelo mesmo caminho até nossa barraca.

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Dia 5: 767 mi (Crabtree Meadow) a 751 mi (Chicken Spring Lake)

Total
Passamos por
26 km
Sequoia National Park
Inyo National Forest
Golden Trout Wilderness

Dia de caminhada longa. Caminhamos o máximo que pudemos pois agora a meta era terminar a Pacific Crest Trail. Depois de quase 5 meses estávamos bem cansados da trilha, da barraca, da natureza, de caminhar… Agora faltava bem pouco para o final.

No meio do caminho vimos vários veados se alimentando em um belo gramado.

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veados na Pacific Cres Trail

Acampamos no Chicken Spring Lake. Ao coletar água no lago, uma surpresa, havia uma camada de gelo flutuando na superfície. O frio não estava para brincadeira. Demorei 15 minutos para eu sentir minhas mãos novamente.

Nesta noite colocamos uma garrafa com água no meio de nós dois, dentro da barraca. O objetivo era impedir que ela congelasse no lado de fora. Você não vai acreditar no que aconteceu…

Clique aqui para voltar ao menu do roteiro.

Dia 6: 751 mi (Chicken Spring Lake) a Horseshoe Meadows

Total
Passamos por
5 km
Inyo National Forest
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nosso último camping na Pacific Crest Trail

Ao acordar peguei a garrafa de água, que estava no meio de nós, e incrédula, constatei que havia gelo dentro da mesma. Foi a noite mais fria que já passamos na vida. Mas apesar de tudo, não passamos frio. Coloquei todas as roupas que não estava usando entre o chão da barraca e o isolante. Isso ajudou muito para manter o calor durante a noite. No lado de fora encontramos riachos com uma camada de gelo por cima. Realmente estava muito frio.

Este foi oficialmente nosso último dia na Pacific Crest Trail, mas a sensação é que o último foi no Mount Whintey. Nossas mentes já não estavam mais na trilha. Estavam na cidade, em um quarto, cama, restaurante e internet. Nossos objetivos na trilha já tinham sido cumpridos e agora era só levar nossos corpos para o ambiente urbano.

Felizes, ansiosos e cansados, caminhamos nossos últimos quilômetros desta incrível e intensa jornada. Para nossa ajuda a caminhada foi uma descida curtíssima. Logo chegamos no Horseshoe Meadows, onde há um campground. Era cedo, e o Campground não estava muito movimentado. Acho que esperamos quase uma hora, para um carro passar indo em direção à Lone Pine. E claro! O carro parou e nos levou direto para o MCDonald’s da cidade. Nada como um bom e calórico hambúrguer para fechar 5 meses na incrível Pacific Crest Trail.

E para resumir, vou deixar o post final desta jornada que fizemos em nosso Instagram:

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🇵🇷 Acabou!!! Não tem mais!!! Após intensos 5 meses caminhando, nos despedimos dos ESTADOS UNIDOS. . 🐷 Intensos para a maioria dos mortais. Mas comparados aos THRU-HIKERS, aqueles que percorrem todos os 4200 km da Pacific Crest Trail no mesmo ano, nós mal caminhamos. Aliás, conhecê-los foi um ponto marcante da viagem, principalmente para nossos narizes. Aquele odor característico jamais será esquecido! . 😇 Outras pessoas que nos impressionaram foram os TRAIL ANGELS. Era só colocar as mochilas, que nos transformávamos em pessoas especiais. Ganhamos comida, bebida, carona, hospedagem, em troca de um simples bate-papo. Nunca vi tanta hospitalidade e generosidade. Não é à toa que são reconhecidos como Trail Angels! . 👒 E claro que a trilha deixou muitas lembranças. Além de conhecermos lugares realmente lindos, ficamos surpreendidos com a MANUTENÇÃO impecável e a boa sinalização durante o caminho. Como eles conseguem viabilizar uma trilha tão longa assim?!? É de tirar o chapéu! . 🐻 E os animais? Aves, marmotas, esquilos, borboletas, cobras, coelhos, veados e o URSO. Ah!… O urso! Meu coração bateu forte quando nossos olhares se encontraram. Sem conseguir um registro fotográfico, te levamos eternamente na memória. Infelizmente o Ramon leva somente sua bunda na memória. Quando ele te viu, você já estava fugindo. . 🏞 Mas se me perguntarem qual foi o melhor de tudo, para mim, Paula, foi caminhar pelo KINGS CANYON NATIONAL PARK, durante a John Muir Trail. Sem dúvidas esse lugar superou minhas expectativas. . 💕 A saudade já bate no coração, mas confessamos que o SAQUINHO estava bem cheio… Passou da hora de mudarmos a rotina! . #mochilaosabatico #mochilaopct19 #pacificcresttrail

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Clique aqui para voltar ao menu do roteiro.

Dicas

  • Dicas gerais da Pacific Crest Trail estão no post principal “Pacific Crest Trail – nosso pedacinho deste longo caminho“.
  • Se prepare para o frio e o vento no Mount Whitney. Leve calça e jaqueta corta-vento, luvas, gorro, e uma bandana grossa para proteger o nariz. A minha bandana era fina e meu nariz escorrendo me incomodou muito. Tive muito frio nas mãos também. Minhas luvas não eram muito grossas, além de não barrarem vento.
  • Caminhamos por Sierra Nevada no mês de setembro, final do verão, quando praticamente toda a neve havia derretido e o volume de água nos rios estava bem baixo. A caminhada é bem mais agradável neste período.

Custos

Seguem alguns custos em dólares americanos (USD) e equivalentes em reais (BRL), conforme o câmbio que fizemos.

  • Chuveiro, no posto de gasolina em Independence: $USD 5 ($BRL 20)
  • Mercado Vons em Bishop, comida para trilha, média diária individual: $USD 7 ($BRL 28)
  • Lavanderia, em Bishop: $USD 3 ($BRL 12)
  • Hospedagem El Rancho , em Bishop, diária casal sem café da manhã: $USD 100 ($BRL 394)
  • Hospedagem Dow Villa, em Lone Pine, diária casal sem café da manhã: $USD 80 ($BRL 315)
  • Lavanderia, em Lone Pine: $USD 5 ($BRL 20)

Cotação comercial em 30/9/2019:
$USD 1,00 = $BRL 4,16

Dados sabáticos

4700 km trilhados
86 cidades
5 países
2 anos e 3 meses

Quer mais?

Nós, Paula e Ramon, estamos curtindo uma vida sabática desde 2017, focando no que mais gostamos de fazer: viajar caminhando.

Nos acompanhe também em:

 

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