Descansando perto do Pico do Marins
América do Sul, Brasil, Minas Gerais, São Paulo

TRAVESSIA MARINS a ITAGUARÉ – a travessia mais difícil de nossas vidas

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A Transmantiqueira é uma sequência de trilhas que percorre quase 1100 km da Serra da Mantiqueira. Em 2018 criou-se a Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso, onde a Transmantiqueira é uma integrante de suma importância.

Neste relato fizemos o setor 11 da Transmantiqueira, região denominada Altos da Mantiqueira, que corresponde à Travessia Marins x Itaguaré. São 18 km desde o estacionamento da base do Pico do Marins (Piquete, SP) até o acampamento base do Pico do Itaguaré (Marmelópolis, MG).

Até 2020, nós percorremos esta travessia três vezes. O relato deste post tem como base a travessia realizada em julho de 2017, com algumas atualizações posteriores.


Resumo travessia Marins – Itaguaré

  • Metrópoles próximas: São Paulo (232 km) e Rio de Janeiro (287 km)
  • Início: estacionamento na base do Marins (Piquete, SP)
  • Fim: acampamento base do Itaguaré (Marmelópolis, MG)
  • Distância: 18 km
  • Duração: 4 dias
  • Altitude máxima: 2432 metros

Como chegamos

Como não temos carro, nossa logística é focada em ônibus. As rodoviárias mais próximas da base do Marins é Marmelópolis e Piquete. Saindo de São Paulo, não encontramos nenhum ônibus que vai direto para essas duas cidades. Então tivemos que comprar passagem para Cruzeiro. São aproximadamente 3h30min de viagem.

De Cruzeiro optamos por pagar um táxi para nos levar no estacionamento e acampamento base do Marins. Boa parte do trajeto é em rua de terra e os últimos km são terríveis. É um trecho bem inclinado e escorregadio, 99% dos veículos derrapam na subida. O taxista não tinha muita habilidade neste tipo de terreno e acabou nos largando a 1,5 km do estacionamento.


Roteiro

Realizamos a travessia em 4 dias e 3 noites, como segue:

  1. Estacionamento base Marins até Morro do Careca
  2. Morro do Careca até Pico do Marins
  3. Pico do Marins até próximo da pedra do Picolé
  4. próximo da pedra do Picolé até base do Itaguaré

Dia 1 – base do Marins até morro do Careca

Resumo do dia 1
Total Percorrido
Tempo
Subimos
Descemos
Altitude máxima
3,5 km
2 horas
597 metros
131 metros
1806 metros

Como começamos a trilha tarde, no primeiro dia andamos 3,6 km, desde onde o taxista nos deixou até o morro do Careca.

A trilha começa no estacionamento e camping privado conhecido como a base do Marins. Para quem quiser pode estacionar o carro ou acampar. O custo está entre 10 e 20 reais.

Da base do Marins até o morro do Careca são aproximadamente 45 minutos de subida, sendo que a maior parte do tempo é protegida pela floresta. Somente quando chegamos no morro, nós fomos presenteados com a primeira paisagem da travessia.

Travessia Marins Itaguaré Serra da mantiqueira
Vista no Morro do Careca

O local de acampamento fica a alguns metros adiante do morro do Careca, ao lado de onde há uma placa da APA Serra da Mantiqueira. E alguns metros abaixo do acampamento há um córrego de água onde é possível coletar água.

Logo no início da trilha um cachorrinho começou a nos acompanhar. Não o alimentamos para ver se ele desistia de nós. Mas confesso que não conseguimos deixar de fazer um carinho neste cachorrinho tão simpático. Acho que isso fez ele acreditar que seríamos uma boa companhia para os próximos dias. Ou foi o cheiro do salame que estava na mochila?

Dia 2 – morro do Careca até pico do Marins

Resumo do dia 2
Total Percorrido
Tempo
Subimos
Descemos
Altitude máxima
3,5 km
3h50min
682 metros
65 metros
2420 metros

Acordamos de manhã e ao sair da barraca quem aparece todo feliz e saltitante? O cachorrinho não desistiu de nós, mesmo passando fome. Aliás o coitado estava bem magrinho e então começamos a alimentá-lo. Ele aceitou tudo que comemos, menos a maçã. Não sei se ele tem dono, mas se tem, ficou fora da casa dele por uns 4 dias.

Neste dia andamos do morro do Careca até o pico do Marins, a 27º montanha mais alta do Brasil. O Pico do Marins foi o primeiro lugar que acampei, em 2014, e depois disso voltamos para lá várias vezes.

A trilha é um pouco complicada, mas está bem melhor sinalizada que alguns anos atrás. Alguém colocou alguns sinais e setas nas pedras indicando o caminho. É uma subida sem fim e tem muito trecho com pedras e rochas, onde é necessário fazer escalaminhada em vários pontos. Isso torna o percurso bem mais difícil. Além disso há trechos com um capim gigante, conhecido como capim elefante, que pode confundir um pouco a navegação.

20170628_095329
Subindo entre as pedras em direção ao Pico do Marins

O cachorro deu um baile na gente. E em alguns pontos que eu estava na dúvida, o cachorrinho aparecia e me mostrava o caminho. Recomendo de qualquer modo o uso de GPS para não se perder. Em 1985 um escoteiro chamado Marco Aurélio, então com 15 anos desapareceu nesse trecho da trilha e nunca mais foi visto. Uma das maiores buscas já realizadas no Brasil, envolvendo 300 pessoas, e Marco Aurélio não foi encontrado.

Após 2h30min de caminhada desde o morro do Careca, e aproximadamente a 1 km do Pico do Marins há uma grande área de acampamento.

Serra da Mantiqueira _ Travessia Marins x Itaguaré
nosso acampamento na base do Marins em 2020

Perto da área de acampamento, indo em direção à Itaguaré, há um ponto de água em um matagal cheio de bambuzinho. Enchemos nossas garrafas com água suficiente para chegar até o Pico, passar a noite e voltar no dia seguinte para nos abastecermos novamente.

Dizem que a água no Marins é contaminada, mas nós sempre filtramos a água antes de usá-la e nunca passamos mal em nenhum lugar até hoje. Outra observação importante é que o volume de água varia conforme o período do ano. Na época de seca e final do inverno, provavelmente haverá muito pouca água no bambuzinho. Em setembro de 2020, conseguimos coletar água que se acumulava em um poço neste ponto.

Nos finais de semana o Marins fica lotado de barracas, mas como era dia de semana, o pico era todo nosso. Durante à noite fiquei com muita pena do cachorro, e de tempos em tempos ouvia ele resmungando no lado de fora. A temperatura das noites nessa travessia, em julho, variaram em torno de 3ºC.

Dia 3 – pico do Marins, pico do Marinzinho, pedra Redonda, pedra do Picolé

Resumo do dia 3
Total Percorrido
Tempo
Subimos
Descemos
Altitude máxima
3,5 km
4h50min
340 metros
491 metros
2432 metros

Acordamos para ver o nascer do Sol no Pico do Marins e conforme o Sol apareceu, o Mochilinha (apelido que demos ao cachorro) encontrou um lugarzinho para tomar Sol e se esquentar depois de uma noite brava.

Uma imagem interessante no nascer do Sol é a sombra que o Pico do Marins faz no vale.

20170629_065248
Sombra do Pico do Marins

Depois do café da manhã partimos rumo ao próximo acampamento.

20170629_082858
Vista do Pico do Marins

Descemos o Pico do Marins e nos abastecemos de água novamente, o suficiente para a caminhada do dia, passar a noite e caminhada do dia seguinte, pois o próximo ponto de água ficava longe, perto do Itaguaré, onde pretendíamos alcançar somente no último dia. Eu carreguei cerca de 3,5 litros e o Ramon 5 litros de água. Foi mais que o suficiente. O Ramon conseguiu dar um banho de gato com a água e ainda sobrou um pouco.

Outra alternativa seria ir direto para Itaguaré onde tem água e assim carregar menos peso, o que na minha opinião é até mais cansativo, seriam no total umas 8 horas de caminhada no dia. E como nosso objetivo era ir devagar e curtindo, dormimos antes de chegarmos no Itaguaré.

Ainda no bambuzinho, aproveitamos para tomar um lanche e o Mochilinha decidiu sair correndo atrás de um cachorro que ele avistou à distância. Acho que ele percorreu em 5 minutos o que a gente faria em 45 minutos pelo menos. Achamos que ele ia embora naquele momento, mas ele voltou, afinal de contas nós tínhamos salame.

Combinei com o Ramon que eu iria chutar o cachorro para ele parar de nos seguir. Até parece que eu iria conseguir… Minha preocupação era ele nos seguir até Passa Quatro e ficar perdido por lá.

Depois de muita pirambeira e trilha estreita, passamos pelo pico do Marinzinho (2432 metros de altitude), que apesar do nome diminutivo é mais alto que o Pico do Marins (2420 metros de altitude).

Travessia marins x Itaguaré
vista do Pico do Marinzinho

O Marinzinho é outra alternativa de acesso à montanha. Há uma trilha muito bem sinalizada que começa praticamente na pousada Maeda e vai até o pico do Marinzinho.

Logo depois havia um trecho que praticamente fizemos rapel em algumas cordas fixadas nas pedras. Neste ponto o Mochilinha chorou e latiu muito, pois tivemos que deixá-lo para trás. Não tive coragem de olhar.

Travessia Marins Itaguaré_Serra da mantiqueira
“rapel” após o Marinzinho

Descemos um vale por quase 1 hora ouvindo o latido do cachorro lá de cima. E de repente, quem aparece correndo? O Mochilinha nos alcançou. Não nos pergunte como, mas ele achou outro caminho. Tudo por um salame.

Subimos novamente, do mesmo jeito de sempre, trilha estreita, escalaminhada, mata quase fechada e muita canseira.

Marins Itaguaré Serra da Mantiqueira
Indo para o próximo acampamento

Fomos nos aproximando da Pedra Redonda. Parece uma bolinha em cima da montanha, com o Itaguaré ao fundo. Uma imagem clássica da travessia.

20170629_151110
Pedra Redonda e Itaguaré ao fundo

De perto a Pedra Redonda está mais para uma pedra quadrada.

Travessia Marins Itaguaré_Serra da mantiqueira
Pedra Redonda de perto

Um pouco mais adiante, passamos pelo Picolé, uma pedra que obviamente lembra um picolé.

Travessia Marins Itaguaré_Serra da mantiqueira
Pedra do Picolé com o Mochilinha

Neste trecho tem várias opções de acampamentos, ficamos em um que ficava depois das pedras Redonda e do Picolé.

Nesta noite, consegui fazer o cachorro dormir no recuo da barraca. Ele ficou lá boa parte da noite, mas depois de um certo tempo, o calor gerado por nós versus o frio de fora da barraca, fez condensar água e começou a cair algumas gotas. Cheguei a acordar com algumas gotas, me cobri e segui dormindo. Como o Mochilinha não tinha como se cobrir, ele decidiu ir dormir lá fora no frio mesmo.

Dia 4: próximo da Pedra do Picolé até base do Itaguaré

Resumo do dia 4
Total Percorrido
Tempo
Subimos
Descemos
Altitude máxima
7,5 km
7h10min
400 metros
1140 metros
2308 metros

No último dia saímos do acampamento perto da Pedra Redonda e fomos em direção ao Itaguaré.

Marins no lado direito e Itaguaré à esquerdaMarins no lado direito e Itaguaré à esquerda

Durante o percurso do quarto dia o Mochilinha ficava chorando em obstáculos relativamente fáceis para ele, mas sempre seguia em frente. Acho que ele não conhecia direito aquele pedaço da Serra e ficava receoso. Me arrependi muito de não ter espantado ele logo no início. De certo que ele estava tão magrinho quando o encontramos, que pelo menos ganhou alguma proteína com a gente…

chegando no Itaguaré
Chegando no Itaguaré

A trilha continuou do mesmo jeito com muita escalaminhada, mata quase fechada, muita canseira e ainda tivemos que passar por um pequeno e curto túnel sem a mochila nas costas.

Serra da Mantiqueira
obstáculos na travessia de Marins a Itaguaré

Próximo ao pico do Itaguaré há vários locais de acampamento, eles estão apontados no aplicativo Maps.Me. Não é possível acampar no cume. E entre um acampamento e outro há um ponto de água, que pode ter seu volume de água variando conforme o ano. Em setembro de 2020 conseguimos coletar água neste ponto, e estava menos suja que a água do Marins.

Para ir ao cume é necessário subir uma trilha por uns 300 metros. Depois de tudo que já passamos, caminhar esses 300 metros foi moleza, principalmente porque não carregamos nossas cargueiras. Iríamos retornar pelo mesmo caminho.

Lá em cima há várias pedras gigantes. A mais alta de todas, onde fica o cume, tem um acesso mais complicado, sendo necessário pular um abismo. Tô fora! Para mim, a paisagem nas pedras mais baixas já me satisfaz.

Travessia Marins Itaguaré_Serra da mantiqueira
pico do Itaguaré

Descemos a montanha, por 2,5 km em uma trilha bem inclinada. O último obstáculo foi descer um terreno rochoso bem escorregadio sem escorregar. E este foi o último momento na rocha.

O final da trilha é uma descida bem demarcada e esburacada dentro da floresta. No último km cruzamos umas três vezes um pequeno rio. Esse seria o único ponto de água com farto volume que encontramos durante toda a travessia.

Começamos a cruzar com outras pessoas subindo. E aí o Mochilinha começou a correr para lá e para cá. Numa dessas corridas saímos da trilha e nunca mais o vimos. Melhor assim.

Como não temos mais carro, temos que ir até Passa Quatro ou Cruzeiro para pegar um ônibus de volta para São Paulo. Teríamos duas opções para chegar em Passa Quatro (que é a cidade mais próxima): conseguir uma carona ou ir a pé no dia seguinte.

Deu sorte, ao chegarmos na base do Itaguaré, onde há um estacionamento e local de acampamento gratuitos, parou um casal em um Fusca para nos dar carona. Fomos um pouco apertados mas deu certo. Abracei minha cargueira e fui praticamente beijando-a o caminho todo, nem conseguia ver a estrada. O que foi bom, pois começou a escurecer e o farol do Fusca não estava funcionando direito. E para complementar acabou a bateria e o Ramon teve que empurrá-lo em alguns trechos. Ainda bem que era uma descida. Chegamos na cidade, o casal deixou o Fusca encostado e seguimos todos a pé. O Fusca nos economizou uns 17 km de caminhada, e apesar dos contratempos, foi bem melhor do que descer a pé. Meus joelhos agradeceram.

Chegamos em Passa Quatro e dormimos em um hotel em frente à estação de trem, para voltar para São Paulo no dia seguinte. Foi um pouco caro: R$90,00 a diária por pessoa. Mas como já era noite e estávamos cansados, ficamos por lá mesmo.


Custos

  • Ônibus de São Paulo até Piquete, individual: R$ 70,10
  • Táxi de Piquete até perto da base do Marins: R$ 120 a 150
  • Hotel Embaixador, em Cruzeiro, diária casal com café da manhã: R$ 125,00
  • Hotel em Passa Quatro, diária casal: R$180,00
  • Ônibus de Passa Quatro até São Paulo, individual: R$ 72,25

Dicas

  • É uma trilha pesada e é necessário preparo físico para encará-la.
  • Planeje se abastecer de água suficiente para não faltar, não há muitos pontos de água durante o percurso.
  • Leve GPS ou vá com um guia, caso contrário você irá se perder.
  • Se prepare para o frio.
  • A trilha é bem exposta ao Sol, use um boné ou chapéu; e não esqueça do protetor solar.
  • Um cachorro te seguiu? Espante-o. Será melhor para ele. Normalmente os cachorros não gostam que joguem água em suas cabeças… Fica a dica.

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4 comentários em “TRAVESSIA MARINS a ITAGUARÉ – a travessia mais difícil de nossas vidas”

  1. Eu estou aqui pensando aonde vcs se abasteceram de água no Marins? Toda a água de lá está contaminada. Outra opção seria dormir em Marmelópolis. Lá existe guias e vans que te levam por um preço bem acessível sem necessidade de pegar táxi.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito boa a descrição do roteiro!!! Esse eu ainda fiz, com o seu descritivo do trecho, e mais um tracklog, vou me programar. Um abraço!
    P.S. Não se preocupe com o “mochilinha” não, ele é cachorro de trilha, fica pra lá e pra cá e depois vai pra casa.

    Curtido por 1 pessoa

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