Descansando perto do Pico do Marins
Brasil, Sudeste

TRAVESSIA MARINS a ITAGUARÉ: um pedacinho da Serra da Mantiqueira

A Transmantiqueira é uma sequência de trilhas que percorre quase 400 km da Serra da Mantiqueira. Neste relato fizemos um pequeno pedaço desta trilha, 16 km desde a base do Pico do Marins (Piquete, SP) até o acampamento base do Pico do Itaguaré (Marmelópolis, MG).

Como chegamos

Fomos no meio da semana e não tem ônibus saindo de São Paulo direto para Piquete. Só tem no sábado. Então tivemos que comprar passagem para Cruzeiro.

De Cruzeiro optamos pegar um táxi para nos levar na base do Marins. Não tivemos muita sorte nessa escolha. Acho que o taxista nunca andou em estrada de terra, ficou com medo e acabou nos largando a 1,5 km do início da trilha.

Outra opção seria pegar um ônibus de Cruzeiro até Piquete e em Piquete contratar um táxi.

Dia 1 – da base do Marins até morro do Careca

Como começamos a trilha tarde, no primeiro dia andamos 3,6 km, desde onde o taxista nos deixou até o morro do Careca.

Logo no início da trilha um cachorrinho começou a nos acompanhar. Não o alimentamos para ver se ele desistia de nós. Mas confesso que não conseguimos deixar de fazer um carinho neste cachorrinho tão simpático. Acho que isso fez ele acreditar que seríamos uma boa companhia para os próximos dias. Ou foi o cheiro do salame que estava na mochila?

 

Resumo do dia 1
Total Percorrido
Tempo
Pontos de água
Subimos
Descemos
Altitude máxima
Dificuldade
3,6 km
2 horas
2
597 metros
131 metros
1806 metros
Leve Moderada

Dia 2 – do morro do Careca até pico do Marins

Acordamos de manhã e ao sair da barraca quem aparece todo feliz e saltitante? O cachorrinho não desistiu de nós, mesmo passando fome. Aliás o coitado estava magrinho e então começamos a alimentá-lo. Ele aceitou tudo que comemos, menos a maçã. Não sei se ele tem dono, mas se tem, ficou fora da casa dele por uns 4 dias.

Neste dia andamos do morro do Careca até o pico do Marins, o segundo pico mais alto do estado de São Paulo e 26º do Brasil. O Pico do Marins foi o primeiro lugar que acampei, em 2014, e depois disso voltamos para lá todos os anos.

A trilha é um pouco complicada, mas está bem melhor sinalizada que alguns anos atrás. Alguém colocou alguns sinais e setas nas pedras indicando o caminho. É uma subida sem fim e tem muito trecho com pedras, onde é necessário fazer uma escalaminhada em alguns pontos. Isso torna o percurso mais difícil.

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Subindo entre as pedras em direção ao Pico do Marins

O cachorro deu um baile na gente. E em alguns pontos que eu estava na dúvida, o cachorrinho aparecia e me mostrava o caminho. Recomendo de qualquer modo o uso de GPS para não se perder. Em 1985 um escoteiro chamado Marco Aurélio, então com 15 anos desapareceu nesse trecho da trilha e nunca mais foi visto. Uma das maiores buscas já realizadas no Brasil, envolvendo 300 pessoas, e Marco Aurélio não foi encontrado.

 

Aproximadamente a 1 km do Pico do Marins há uma grande área de acampamento, onde nos abastecemos de água, o suficiente para chegar até o Pico, passar a noite e voltar no dia seguinte para nos abastecermos novamente.

Nos finais de semana o Marins fica lotado de barracas, mas como era dia de semana, o pico era todo nosso. Durante à noite fiquei com muita pena do cachorro, e de tempos em tempos ouvia ele resmungando no lado de fora. A temperatura das noites nessa travessia variaram em torno de 3ºC.

Resumo do dia 2
Total Percorrido
Tempo
Pontos de água
Subimos
Descemos
Altitude máxima
Dificuldade
3,5 km
3h50min
1
682 metros
65 metros
2415 metros
Pesada

Dia 3 – pico do Marins, pico do Marinzinho, pedra Redonda, pedra do Picolé

Acordamos para ver o nascer do Sol no Pico do Marins e conforme o Sol apareceu, o Mochilinha (apelido que demos ao cachorro) encontrou um lugarzinho para tomar Sol e se esquentar depois de uma noite brava.

 

Uma imagem interessante no nascer do Sol é a sombra que o Pico do Marins faz no vale.

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Sombra do Pico do Marins

Depois do café da manhã partimos rumo ao próximo acampamento.

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Vista do Pico do Marins

Descemos o Pico do Marins e nos abastecemos de água novamente, o suficiente para a caminhada do dia, passar a noite e caminhada do dia seguinte, pois o próximo ponto de água ficava longe, perto do Itaguaré, onde pretendíamos alcançar somente no último dia. Eu carreguei cerca de 3,5 litros e o Ramon 5 litros de água. Foi mais que o suficiente. O Ramon conseguiu dar um banho de gato com a água e ainda sobrou um pouco. Outra alternativa seria ir direto para Itaguaré onde tem água e assim carregar menos peso. Mas nosso objetivo era ir devagar e curtindo.

Aproveitamos para tomar um lanche e o Mochilinha decidiu sair correndo atrás de um cachorro que ele avistou à distância. Acho que ele percorreu em 5 minutos o que a gente faria em 45 minutos pelo menos. Achamos que ele ia embora naquele momento, mas ele voltou, afinal de contas nós tínhamos salame.

A amizade pelo salame, quer dizer, por nós, foi tão forte que ficamos impressionados com o Mochilinha. Depois de passar pelo pico do Marinzinho, havia um trecho que praticamente fizemos rapel em algumas cordas fixadas nas pedras para poder continuar. Neste ponto o Mochilinha chorou e latiu muito, pois tivemos que deixá-lo para trás. Não tive coragem de tirar foto. Descemos um vale por quase 1 hora ouvindo o latido do cachorro lá de cima. E de repente, quem aparece correndo? O Mochilinha nos alcançou. Não nos pergunte como, mas ele achou outro caminho. Tudo por um salame.

Neste trecho tem várias opções de acampamentos, ficamos em um que ficava depois das pedras Redonda e do Picolé.

 

Nesta noite, consegui fazer o cachorro dormir no recuo da barraca. Ele ficou lá boa parte da noite, mas depois de um certo tempo, o calor gerado por nós versus o frio de fora da barraca, fez condensar água e começou a cair algumas gotas. Cheguei a acordar com algumas gotas, me cobri e segui dormindo. Como o Mochilinha não tinha como se cobrir, ele decidiu ir dormir lá fora no frio mesmo.

Resumo do dia 3
Total Percorrido
Tempo
Pontos de água
Subimos
Descemos
Altitude máxima
Dificuldade
3,3 km
4h50min
1
340 metros
491 metros
2418 metros
Pesada

Dia 4: do acampamento perto da Pedra Redonda até base do Itaguaré

No último dia saímos do acampamento perto da Pedra Redonda e fomos em direção ao acampamento base do Itaguaré.

 

Combinei com o Ramon que eu iria chutar o cachorro para ele parar de nos seguir. Até parece que eu iria conseguir… Minha preocupação era ele nos seguir até Passa Quatro e ficar perdido por lá.

Durante o percurso do quarto dia o Mochilinha ficava chorando em obstáculos relativamente fáceis, mas sempre seguia em frente. Acho que ele não conhecia direito aquele pedaço da Serra e ficava receoso.

Marins no lado direito e Itaguaré à esquerda
Marins no lado direito e Itaguaré à esquerda

O final da trilha é uma descida de 2,5 km bem demarcada e esburacada. Começamos a cruzar com outras pessoas subindo. E aí o Mochilinha começou a correr para lá e para cá. Numa dessas corridas saímos da trilha e nunca mais o vimos. Melhor assim.

Como não temos mais carro, tivemos que ir até Passa Quatro para pegar um ônibus de volta para São Paulo. Teríamos duas opções para chegar no Passa Quatro: conseguir uma carona ou ir a pé no dia seguinte. Deu sorte, chegamos na base do Itaguaré, deu 1 minuto (sem exagero) e parou um casal em um Fusca para nos dar carona. Fomos um pouco apertados mas deu certo. Abracei minha cargueira e fui praticamente beijando-a o caminho todo, nem conseguia ver a estrada. O que foi bom, pois começou a escurecer e o farol do Fusca não estava funcionando direito. E para complementar acabou a bateria e tivemos que empurrá-lo em alguns trechos. Ainda bem que era uma descida. Chegamos na cidade, o casal deixou o Fusca encostado e seguimos todos a pé. O Fusca nos economizou aproximadamente 15 km de caminhada, e apesar dos contratempos, foi bem melhor do que descer a pé. Meus joelhos agradeceram.

Chegamos em Passa Quatro e dormimos em um hotel em frente à estação de trem, para voltar para São Paulo no dia seguinte. Foi um pouco caro: R$90,00 a diária por pessoa. Mas como já era noite e estávamos cansados, ficamos por lá mesmo.

Resumo do dia 4
Total Percorrido
Tempo
Pontos de água
Subimos
Descemos
Altitude máxima
Dificuldade
6,4 km
6h10min
2
365 metros
1103 metros
2267 metros
Pesada

Custos por pessoa

  • Ônibus de São Paulo até Piquete: R$61,56
  • Táxi de Piquete até perto da base do Marins: R$ 150,00 (R$ 75,00 por pessoa)
  • Comida para trilha: R$ 45,00
  • Hotel: R$90,00 (caríssimo)
  • Ônibus de Passa Quatro até São Paulo: R$ 72,25

Resumo travessia Marins – Itaguaré

  • Metrópoles próximas: São Paulo (232 km) e Rio de Janeiro (287 km)
  • Início: acampamento base do Marins (Piquete, SP)
  • Fim: acampamento base do Itaguaré (Marmelópolis, MG)
  • Distância: 17 km
  • Duração: 4 dias (é possível fazer em menos dias)
  • Pontos de água: poucos
  • Elevação: subimos 1984 metros e descemos 1790 metros
  • Altitude máxima: 2418 metros
  • Mapa da trilhaWikiloc
  • Custo por pessoa: R$ 344,00
  • Dificuldade: pesada

Dicas

  • É uma trilha pesada e é necessário preparo físico para encará-la.
  • Planeje se abastecer de água suficiente para não faltar, não há muitos pontos de água durante o percurso.
  • Leve GPS ou vá com um guia, caso contrário você irá se perder.
  • Se prepare para o frio.
  • A trilha é bem exposta ao Sol, use um boné ou chapéu; e não esqueça do protetor solar.

Quer mais?

Para um trekking de um dia, o Parque Estadual do Pico do Jaraguá é uma boa opção e tem uma bela vista da cidade de São Paulo.

Se quiser se aventurar em uma travessia bem mais simples, tente o Pico da Onça em São Francisco Xavier ou o circuito na Serra do Lopo em Extrema/MG. É uma boa sugestão para iniciantes.

Para saber se você tem um bom preparo físico para encarar a travessia de Marins a Itaguaré, tente antes a travessia do  saco do Mamanguá e Juatinga em Paraty.

E para uma experiência internacional, a sugestão é o Parque Nacional Nahuel Huapi, em Bariloche na Argentina.

Links externos

http://www.marinzeiro.com/home.html

http://noticias.r7.com/sao-paulo/apos-quase-30-anos-familia-de-escoteiro-que-desapareceu-em-escalada-busca-por-respostas-16092013



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4 comentários em “TRAVESSIA MARINS a ITAGUARÉ: um pedacinho da Serra da Mantiqueira”

  1. Muito boa a descrição do roteiro!!! Esse eu ainda fiz, com o seu descritivo do trecho, e mais um tracklog, vou me programar. Um abraço!
    P.S. Não se preocupe com o “mochilinha” não, ele é cachorro de trilha, fica pra lá e pra cá e depois vai pra casa.

    Curtido por 1 pessoa

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